sábado, 7 de agosto de 2010

O céu como alternativa


Povos antigos orientavam-se no tempo e no espaço através do céu.
O céu era, de fato, mirado constantemente. Ali começavam religiões, destinos objetivos.
Vidas se moldavam pelo céu. De dia e de noite, céu.
Hoje não se vê muitas pessoas olhando pro céu. De fato, eu não lembro a última vez em que presenciei a sublime cena de uma pessoa olhando pro céu, mesmo que de soslaio, ou momentaneamente. Até onde sei, posso afirmar com muita certeza de que quase quase ninguém olha para o céu.
Mas algo tem que desempenhar o papel de céu na vida de uma pessoa.
Qual é o céu dessas pessoas?
O que elas preferiram ver, ao invés de uma breve espiada no céu?
Ah, sim. Hoje eu passei por uma avenida movimentada e tudo o que eu vi eram lojas.
Lojas. Milhões delas. Numa vasta e longa avenida, uma loja por metro.
Acho que as pessoas pararam de olhar o céu, para ver as lojas.
Tão coloridas e chamativas!
Uma mistura de cores e objetos em um lugar especial apenas para ficarem à mostra, e chamarem a atenção.
Mas onde entra o céu, na vida das pessoas sem céu?
Se não há religião, ou objetivo, se não há céu.
Algo tem que ocupar o papel de céu na vida dessas pessoas que escolheram ser órfãs.
Ah, sim. As lojas.
As lojas são o céu das pessoas de hoje em dia. A oritentação? Para a próxima loja! O objetivo? Comprar, para se sentir bem.
Ver, comprar. Ver, comprar.
E isso me leva inexoravelmente ao pensamento central de toda essa introdução.
Será que as pessoas dessa religião desempenham apenas um papel?
De fato, a religião tem ambitos passivos e ativos do crente.
No caso  capitalista das lojas, o único âmbito ativo é a compra.
Todo o resto é passividade. A vida das pessoas que se moldam em torno do comprar, não giram apenas em torno do comprar. De fato, o comprar é a conseqüência ativa da passividade que caracteriza a vida dessas pessoas. As pessoas não vivem para comprar, não é esta a sua religião. As pessoas vivem para serem compradas.
Num sistema regido por trocas, e compra e venda, hoje em dia uma pessoa não passa de um produto numa prateleira. Esse produto não pensa, esse produto não se expressa. O produto trata unicamente de se vender. Tudo o que se compra, ou se faz, a pessoa dá um jeito de incluir em seu próprio rótulo, de forma que o comprador que apareça leia, se sinta surpreendido ou admirado, e compre esse produto. “Uau, esse produto tem uma aparência ótima, sem contar que aqui diz que ele gosta de ler, e, olha só! Ouve as mesmas musicas que eu! Vou levar!”.
Sim, as pessoas se vendem. Um pedido de desculpas por pisar no pé de alguém, uma festa, qualquer conversa em que a pessoa insiste em falar dela mesma, ela quer se vender. Não, meu amigo, não me entenda mal, eu não falo de sexo. Pelo menos não apenas disso. Eu falo de intimidade, de amizade e de sociabilidade. O que se vê, é que os produtos estão na prateleira, uns falando mais alto que outros, alguns mais bonitos, feios, alguns mais exóticos, outros mais comuns.
A terrível conseqüência disso é que não mais as pessoas se vêem ou vêem os outros como pessoas, apenas como um objeto. O amor é aquela pequena lua de mel que se tem com sua compra no caminho de casa. “comprei um tênis, não preciso mais de outro, esse é perfeito para mim.”. assim que se chega em casa, percebe-se que o tênis não era aquilo tudo, e logo, necessitará de outro. Não existe mais amor duradouro, porque confunde-se, infelizmente, um ser com um objeto. Este último, inanimado, pode ser gasto, tornar-se feio, etc. A amizade e o amor verdadeiro se tornaram tão raros quanto as pessoas que observam o céu.
Outro aspecto do meu tempo que pode ser explicado pela minha teoria é o conformismo e passividade das pessoas acerca dos problemas sociais. Políticos corruptos, policiais criminosos, baixos salários, aumento de impostos. Houve um tempo em que pessoas saíam na rua para se expressar contra qualquer injustiça, com a crença de que tinham voz. Hoje, quando se presencia isso, são pequenos grupos, que infelizmente são mal vistos pelos produtos porque, ora, eles deviam estar se vendendo! Todos devemos nos vender!
Mas, meus caros produtos, o que vocês não sabem
Porque não pensam.
É que se todos forem produtos
Quem vai aparecer para comprar?
Até quando sustentará a ilusão de que as outras pessoas são inanimadas?
Até quando pensará que a felicidade é apenas alcançada assim, não conseguindo enxergar sua própria infelicidade na busca infinita e sem significado?
Até quando achará que esse é o certo, e que todos deviam o fazer? E até quando reprovará os que não o fazem?
Pessoas e produtos, olhai para o céu!






John D.

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