terça-feira, 14 de setembro de 2010

A árvore apressada


Acordo as três horas da tarde e olho pela janela. Céu cinza, chuva leve, pingos no vidro. Está escuro, e visibilidade quase nula. Que merda de dia.
Tem essa árvore ali na rua que decidiu florescer antes da primavera. Grande erro. Abriu um leque de flores rosas colorindo o mono-tom de cor invernal e trouxe esperança novamente: a idéia de que o inverno está acabando e eu sobrevivi mais uma dessas ressacas anuais. Mas hoje ela recebeu seu castigo por ser tão ansiosa. O leque outrora erguido apodrece agora no chão, murchando umidamente e formando um tapete rosa sobre a calçada. Que grande metáfora para a ressaca.
Mas o que é a ressaca, afinal?
Na verdade a ressaca não trata apenas da intoxicação. Pelo menos ao meu ver. Eu vejo a ressaca como o castigo aplicado ao corpo pelo tempo bom que passou. A árvore rosa está de ressaca. O inverno é a ressaca do verão. Pela tentativa fútil mas natural da ordem das coisas de equilibrar tudo no mundo, a alegria de hoje nos cobra a tristeza de amanhã.
Mas quem dera e o oposto fosse verdadeiro! Que mundo maravilhoso, se todas as tristezas de hoje se tornassem a alegria de amanhã. A vida começa na alegria, e termina na tristeza, não há o que fazer quanto a isso. O cristianismo errou quando disse que temos de sofrer hoje para passar bem amanhã. As horas em tristeza, embora possam ser de maior filosofia e introspecção, não pagarão em alegrias amanhã. Não perca seu tempo.
Mas espere! Não se apresse! Veja o que aconteceu com a árvore! Cada coisa ao seu tempo. Não adianta forçar a barra. Vai por mim. Eu entendo dessas coisas.


John D.