sábado, 14 de agosto de 2010

The Great Gig In The Sky


Esta era particularmente uma noite fria. Não havia a presença daquele velho vento gelado, que faz estremecer o corpo, mas o frio era intenso mesmo assim. Uma quinta feira mais calma do que as outras. Eu saí de casa em torno das 23h30 para pegar o ônibus que passava por lá em direção ao centro, e ele passaria por ali 23h40. Eu iria até o centro para a casa de um amigo, para posteriormente irmos a um bar tomar algumas cervejas e pensar na vida.
Obviamente o ônibus se atrasou, e eu excedi em 15 minutos minha espera. Não, não estava com pressa. Tanto fazia quanto tempo demorasse o ônibus, mas durante essa espera algo incrível aconteceu. Houve um hiato de 2 ou 3 minutos nessa espera em que nenhum carro apareceu em toda a extensão da avenida. Nenhum. Não havia, também, pessoas andando. Eu estava plenamente sozinho, e como não havia vento, ouvia minha própria respiração, calma, mas tensa por causa do frio. Eu olhava para a esquerda de onde viria meu ônibus, esperando que ele finalmente aparecesse lá longe, quando, subitamente, uma luz cruza o céu num sentido perpendicular a avenida, logo acima desse horizonte. Oscilante em sua trajetória, veio de um lado onde não haviam prédios, e assim que cruzou, saiu da minha vista por passar atrás de um prédio comercial, e, dado o sentido que ela iria, eu jamais a veria de novo.
Mas, pelos céus e os sete mares, O QUE ERA AQUELA LUZ?!
Ela estava muito intensa, lenta, e próxima para ser apenas uma estrela cadente. Sem contar que ela não seguia uma trajetória segura, e reta, e sim oscilante, quase ziguezagueante. Também não há a menor chance de ter sido um fogo de artifício. Era plenamente silenciosa, de brilho homogêneo, e desta vez alta demais para ter sido lançada daqui.
Mas então, o que era aquilo? Ela não foi apenas acompanhada com o canto do meu olhar, porque assim que a percebi dediquei total atenção a ela.
Sim, Ó meus amigos, vocês sabem o que eu vou dizer e podem rir o que quiserem. Mas eu tenho a mais absoluta certeza de que presenciei a rápida e, sim, indiscreta, passagem de um OVNI. Não só esta é a única explicação racional para o fenômeno, quanto eu juro que senti uma presença, mesmo que lá distante. Sim, riam, e me chamem de louco sonhador, mas eu sei o que vi. E não ficaria surpreso se eles não estivessem tentando se comunicar comigo. Aquele era o momento. Eu não estava bêbado, não estava chapado, estava plenamente sozinho e ainda estava mais atento que de comum, como qualquer pessoa que se aventure pela cidade sozinha de noite. Sem contar o fato que havia recém completado uma semana que eu escrevera o texto anterior, convocando a todos a olharem para o céu.
Devaneio? Loucura? Narcisismo? Paranóia?
E se eles sabem o que eu estive pensando? Tudo o que penso sobre a tendência de homogeneização que a sociedade tem, e a tentativa de criação e individuação por que todos deveriam passar, mas são compelidos a seguir o rebanho? E se eles sabem que eu usei recentemente a metáfora de um céu como orientação ao invés da publicidade e das vicissitudes do capitalismo e da compulsão a compra e o desprezo pelos que não seguem esse modelo? E se eles sabem o que eu penso, o que estive desenvolvendo de pensamentos e conflitos, e quiseram mandar um sinal? Alguma mensagem positiva como “continue assim” ou “veja, você está no caminho certo” e seguindo por esse rumo cada vez mais vou ser surpreendido pelo novo, diferente, e inacreditável?
E se eles estão tentando guiar esse meu caminho rumo a uma mente mais aberta, expandida e capaz de pensar por si mesma?
Sim, meus amigos, riam. Mas eu quase acredito nisso.
Quase.
Porque aquela pulguinha atrás da orelha diz que pode ter sido apenas o acaso, um engano meu. Talvez fosse mesmo uma estrela cadente. Ou um fogo de artificio. De qualquer jeito, isso não importa. Não importa porque eu não vou basear o resto da minha vida numa mera visão duvidosa, embora deslumbrante. Eu vou seguir meu caminho, como se essa mensagem não existisse. Fazer o que eu faria mesmo sem essa mensagem. Em resumo, não faz a menor diferença nesse sentido.
Mas, fiquem assombrados com essa.
Pouco menos de meia hora depois de presenciar essa linda cena, ainda assustado e tentando dar algum significado ou explicação para ela, eu fui atingido como uma pobre pessoa atropelada por um trem bala, por uma idéia genial.
Sim, pouco tempo depois, absolutamente saída do nada, me veio uma idéia estonteantemente brilhante.
E assim, aqui vai meu agradecimento aos amigos me mandaram o sinal lá de cima. Obrigado por essa idéia. Porque eu sei que eu jamais teria tamanha genialidade para pensar no pensamento que me cruzou nem em um milhão de anos de filosofia. Eu sei, que vocês plantaram essa idéia na minha cabeça, e eu estou agradecido.
Valeu galera.

sábado, 7 de agosto de 2010

O céu como alternativa


Povos antigos orientavam-se no tempo e no espaço através do céu.
O céu era, de fato, mirado constantemente. Ali começavam religiões, destinos objetivos.
Vidas se moldavam pelo céu. De dia e de noite, céu.
Hoje não se vê muitas pessoas olhando pro céu. De fato, eu não lembro a última vez em que presenciei a sublime cena de uma pessoa olhando pro céu, mesmo que de soslaio, ou momentaneamente. Até onde sei, posso afirmar com muita certeza de que quase quase ninguém olha para o céu.
Mas algo tem que desempenhar o papel de céu na vida de uma pessoa.
Qual é o céu dessas pessoas?
O que elas preferiram ver, ao invés de uma breve espiada no céu?
Ah, sim. Hoje eu passei por uma avenida movimentada e tudo o que eu vi eram lojas.
Lojas. Milhões delas. Numa vasta e longa avenida, uma loja por metro.
Acho que as pessoas pararam de olhar o céu, para ver as lojas.
Tão coloridas e chamativas!
Uma mistura de cores e objetos em um lugar especial apenas para ficarem à mostra, e chamarem a atenção.
Mas onde entra o céu, na vida das pessoas sem céu?
Se não há religião, ou objetivo, se não há céu.
Algo tem que ocupar o papel de céu na vida dessas pessoas que escolheram ser órfãs.
Ah, sim. As lojas.
As lojas são o céu das pessoas de hoje em dia. A oritentação? Para a próxima loja! O objetivo? Comprar, para se sentir bem.
Ver, comprar. Ver, comprar.
E isso me leva inexoravelmente ao pensamento central de toda essa introdução.
Será que as pessoas dessa religião desempenham apenas um papel?
De fato, a religião tem ambitos passivos e ativos do crente.
No caso  capitalista das lojas, o único âmbito ativo é a compra.
Todo o resto é passividade. A vida das pessoas que se moldam em torno do comprar, não giram apenas em torno do comprar. De fato, o comprar é a conseqüência ativa da passividade que caracteriza a vida dessas pessoas. As pessoas não vivem para comprar, não é esta a sua religião. As pessoas vivem para serem compradas.
Num sistema regido por trocas, e compra e venda, hoje em dia uma pessoa não passa de um produto numa prateleira. Esse produto não pensa, esse produto não se expressa. O produto trata unicamente de se vender. Tudo o que se compra, ou se faz, a pessoa dá um jeito de incluir em seu próprio rótulo, de forma que o comprador que apareça leia, se sinta surpreendido ou admirado, e compre esse produto. “Uau, esse produto tem uma aparência ótima, sem contar que aqui diz que ele gosta de ler, e, olha só! Ouve as mesmas musicas que eu! Vou levar!”.
Sim, as pessoas se vendem. Um pedido de desculpas por pisar no pé de alguém, uma festa, qualquer conversa em que a pessoa insiste em falar dela mesma, ela quer se vender. Não, meu amigo, não me entenda mal, eu não falo de sexo. Pelo menos não apenas disso. Eu falo de intimidade, de amizade e de sociabilidade. O que se vê, é que os produtos estão na prateleira, uns falando mais alto que outros, alguns mais bonitos, feios, alguns mais exóticos, outros mais comuns.
A terrível conseqüência disso é que não mais as pessoas se vêem ou vêem os outros como pessoas, apenas como um objeto. O amor é aquela pequena lua de mel que se tem com sua compra no caminho de casa. “comprei um tênis, não preciso mais de outro, esse é perfeito para mim.”. assim que se chega em casa, percebe-se que o tênis não era aquilo tudo, e logo, necessitará de outro. Não existe mais amor duradouro, porque confunde-se, infelizmente, um ser com um objeto. Este último, inanimado, pode ser gasto, tornar-se feio, etc. A amizade e o amor verdadeiro se tornaram tão raros quanto as pessoas que observam o céu.
Outro aspecto do meu tempo que pode ser explicado pela minha teoria é o conformismo e passividade das pessoas acerca dos problemas sociais. Políticos corruptos, policiais criminosos, baixos salários, aumento de impostos. Houve um tempo em que pessoas saíam na rua para se expressar contra qualquer injustiça, com a crença de que tinham voz. Hoje, quando se presencia isso, são pequenos grupos, que infelizmente são mal vistos pelos produtos porque, ora, eles deviam estar se vendendo! Todos devemos nos vender!
Mas, meus caros produtos, o que vocês não sabem
Porque não pensam.
É que se todos forem produtos
Quem vai aparecer para comprar?
Até quando sustentará a ilusão de que as outras pessoas são inanimadas?
Até quando pensará que a felicidade é apenas alcançada assim, não conseguindo enxergar sua própria infelicidade na busca infinita e sem significado?
Até quando achará que esse é o certo, e que todos deviam o fazer? E até quando reprovará os que não o fazem?
Pessoas e produtos, olhai para o céu!






John D.