Nos meus anos de desemprego e apnéia econômica, eu fiquei muito próximo de um amigo que vivia no limite da sobrevivência, vendendo pulseiras e imãs de geladeira na rua. Ele se vestia com roupas feitas por ele ou por conhecidos dele, normalmente usava chinelos, calças largas e listradas de um tecido fino parecido com lã, uma camiseta velha e um casaco aberto de lã por cima. Aos que o viam, ele parecia um cara cool. E ele era, mas ele era muito obcecado e complexado com algumas questões dizendo respeito de si e das outras pessoas. Uma delas, e a mais recorrente, era acerca das pessoas, se elas mudavam ou se mantinham as mesmas ao longo de suas vidas.
Ele sempre trazia esse assunto, enquanto bebíamos cachaça barata em algum lugar pouco movimentado. Ele tomava um gole daquela porcaria como se fosse água, olhando para o nada, e sempre perguntava o que eu achava disso. Minha resposta nunca era a mesma. Acho que é por isso que ele perguntava tanto.
Em um dia, eu responderia que as pessoas mudam todos os dias, e as mudanças tinham graus e níveis. No outro dia, eu diria que, de fato, as pessoas não mudam nunca, não importasse o que acontecesse. Eu acho que meu amigo me perguntava tanto isso não apenas para trazer o assunto à tona, mas para que eu finalmente desse um ultimato.
Bem, meu caro amigo, eis o meu ultimato:
Vá se foder com essas questões existenciais. Pare de pensar em soluções para questões sem resposta seu marginal insano e desprovido de qualquer senso ético e moral, e vá se ocupar de fazer alguma outra coisa.
Agora, se você ainda está aí, eis a minha opinião atual acerca disso.
Sim e não. As pessoas mudam sim, talvez todos os dias, talvez não, mas elas mudam. Mas mesmo mudando, não deixam de ser as filhas da puta de antes. Sim, as pessoas mudam, e não, elas não mudam, continuando as mesmas. Confie em mim, meu caro amigo, estive nesse ramo há tempo demais, e não existe um filho da puta que deixe de ser filho da puta! Eu conheci pessoas que viajaram o mundo, moraram na Índia e viram o Monte Everest, cobrando monogamia de outras que sequer tinham compromisso com alguém, e ficando putas da cara quando o pedido não era atendido. Eu vi no Youtube um escroto que chegou na pergunta de um milhão de reais no Show do Milhão sem qualquer tipo de ajuda, e errou na resposta da última questão porque não sabia os ditos na bandeira nacional. Acredite, meu caro, um idiota sempre será um idiota, não importa o quanto mude. E o mesmo se aplica para pervertidos, paunocus, chatos e bêbados.
É triste isso? Não! Isso ensina como lidar com as pessoas!
Eu tinha um colega de colégio que era o diabo encarnado. O filho da mãe cuspia nas pessoas, chutava canelas, colava papéis, queimava cabelos, soprava bolinhas de papel no tubo da caneta, cheias de saliva. Esses dias encontrei o desgraçado na rua. Ele e a mulher. Ele clama que ama a mulher mais do que tudo. Eles estavam saindo da missa, com um carrinho de nenê a sua frente. O cara trabalhava e cuidava da família. Um homem de família. Acha que eu emprestaria um centavo para esse sujeito? Não! Nem se me sobrassem centavos, transbordando do bolso da calça e tinindo ao cair no chão. Ainda me lembro do paunocu me convidando toda a semana para ir ao puteiro só para que pudesse me pedir dinheiro emprestado. Me lembro ainda dele chutando uma pobre criança dois anos mais nova no chão, e rindo, com bolinhas de saliva saindo da boca dele enquanto falava tentando estabelecer uma hierarquia de poderes. E te garanto, meu amigo, eu não minto, quando digo que, olhando para ele, tanto tempo depois, de cabelo penteado e terno, eu ainda via a perversão e o descontrole personificados em seu rosto. A perversão tem um jeito extrovertido de se exibir no rosto de um degenerado: ela está ali o tempo inteiro, como um crachá: Degenerado Filho da Puta. Ela só se esconde patéticamente por trás de hábitos semi-aceitos socialmente.
As pessoas mudam, mas não mudam, porque elas não podem fugir disso, é natureza delas. Eu não sei se elas nasceram assim ou se aprenderam a ser assim com o tempo, e essa questão também não interessa. O fato é que, meu caro amigo, se tu vai num baile de máscaras, tu pode ver um filho da puta eufórico experimentando as máscaras de todo mundo, mas independente da fantasia barata escrota e sexualmente aceitável que ele ponha, ele será sempre o filho da puta eufórico. Isso é o que ele é.
Esse é meu ultimato, meu caro amigo.
E se essas questões existenciais tornarem a perturbar o seu sono embriagado, faça o mesmo que fazemos com uma televisao velha, quando começa a estragar. Exploda a caixinha com um taco de beisebol e mande-a para bem longe. As vezes funciona. Pelo menos comigo.
John D.
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